
Criar, admirar. Crescer.


"Vou cantar uma música do Bon Jovi. Gostam?" Segurou o microfone com as duas mãos. Ouviu o barulho da guitarra e começou: "This ain't a song for the broken-hearted". Bateu o pé no chão, balançando a cabeça no ritmo da música."No silent prayer for faith-departed." Continuou olhando para as poucas pessoas que estavam na sua frente. Reconheceu algumas pessoas, mas era a primeira vez que cantava na frente delas. "I ain't gonna be just a face in the crowd. You're gonna hear my voice. When I shout it out loud." Não estava nervoso. Cantava para si. Se encontrava na própria voz, sentia a energia da música e quando cantava não se importava com quase nada. "It's my life. It's now or never. I ain't gonna live forever. I just want to live while I'm alive." O homem em pé na porta olhava-o de cima a baixo. Analisava-o. Sabia o que ele queria, só não sabia se poderia ser o que ele pedia. "It's my life. My heart is like an open highway. Like Frankie said I did it my way. I just wanna live while I'm alive. It's my life." Lembrou da infância e da dificuldade que passava na família. Seu pai ouvia música todo o tempo, o que fez o garoto desde de cedo se interessar por cantar. Lembrou dos desejos que tinha ao ver o vizinho ter aquilo que queria para si. Não sentia inveja, mas ficava revoltado com o menino que não valorizava a sorte que tinha. "This is for the ones who stood their ground. For Tommy and Gina who never backed down." Nunca se deu bem com o vizinho. Ambos não podiam pernacer no mesmo local que já iam brigar. Acusava o menino do lado de riquinho, este chamava-o de pobrinho. Os pais logo viam separar, mas na semana seguinte estavam novamente discutindo. "Tomorrow's getting hard make no mistake. Luck ain't even lucky. Got to make your owns breaks." Na adolescência nunca se viam, porém foram se encontrar na faculdade. Estranhamente o vizinho também foi fazer música. Diferente da infância, viraram amigos. "It's my life. It's now or never. I ain't gonna live forever. I just want to live while I'm alive." Descobriram muitas coisas em comum. No fim do curso, formaram uma banda junto com outros três caras. Viajaram para muitos lugares, tocaram em pequenos bares e fizeram grandes amigos. "It's my life. My heart is like an open highway. Like Frankie said. I did it my way. I just wanna live while I'm alive. It's my life." Não conseguiram a verdadeira fama, mas quando voltavam para um lugar sempre os reconheciam. Eram felizes, não precisavam ganhar muito dinheiro com isso. "Better stand tall when they're calling you out. Don't bend, don't break, baby, don't back down." A felicidade acabou quando um dos caras foi vitima da violência do país. Encontraram o corpo do seu antigo vizinho, agora melhor amigo, em uma rua da Grande São Paulo. Disseram que reagira ao assalto, só que isso não importava mais. A banda perdeu um grande integrante. Não conseguiram se reestruturar depois do desastre e tudo acabou. "It's my life. It's now or never. I ain't gonna live forever. I just want to live while I'm alive. It's my life. My heart is like an open highway. Like Frankie said. I did it my way. I just wanna live while I'm alive. It's my life." Percebeu que como nunca sentia a falta do garoto que o irritava quando criança. Percebeu que tivera uma imagem errada na infância. Ia viver, mas o melhor amigo jamais seria esquecido. "It's now or never. I ain't gonna live forever. I just want to live while I'm alive." Depois de dois anos, um produtor o procurou. Escutou um de seus cds independentes e gostou. Agora estava com a sua banda se apresentando exclusivamente para a gravadora. Eles não só iriam fazer o disco, mas iriam divulgá-lo. "It's my life. My heart is like an open highway. Like Frankie said. I did it my way. I just wanna live while I'm alive. It's my life." Terminou a canção e ouviu os aplausos da pequena platéia. Sorriu e sabia que tinha dado certo. Não precisava pensar muito sobre o nome do primeiro álbum. Com certeza, colocaria o nome do vizinho como homenagem. Afinal, ele também faz parte da banda. Ouviu o produtor dizer para tocarem uma música de sua autoria e começou a cantar de novo.

“And it’s a beautiful mess, yes it is.”

Convicção, contradições exageradas. Não se apega a pessoas, até mesmo, coisas materiais. Sorri necessariamente, ri escandalosamente. Humor inconstante. Criticamente analisando, criticamente argumentando. Insegurança, desconfiança. Vontade, desavontade. Medo lado a lado à coragem. Imaginação estranha, estranhamente imaginativas. Língua obscura, delicadeza e palavrão. Contradições sobre contradições. Liberdade presa a dependência. Futuro assustador, ansiosamente esperando o amanhã. Horas sonhando, horas cantando. Há quem não entende, mas nem sua mente consegue entendê-la. Timidez junto a surtos de extrovertimento. Poucas palavras, muitos pensamentos. Contradições contrárias: Contrárias ao mundo, as pessoas, a natureza, a Deus e até ao pensamento. Vontade de ser diferente, mas o diferente de si mesmo não a atrai. Inteligência é a palavra. Morre jovem, cedo envelhece. Um pouco de si mesmo ao mundo, tentando fazer todos compreendê-la, pois nem ela mesma si compreende.
Passava pelo corredor vazio, era começo da noite. Estava com pressa para chegar em casa. O dia havia sido longo, cansativo. Estivera naquele prédio desde às oito da manhã, não queria sentir nem o cheiro dele agora. Agora, voltava da biblioteca. Alugara um livro, um romance épico. Iria lê-lo no fim de semana, não estava com vontade de ir a qualquer lugar nos próximos dias. Ficaria o dia inteiro na cama lendo, imaginando e depois colocaria tudo isso no trabalho mês que vem. O professor havia de ficar satisfeito, pensou. Parou, de repente, em frente a porta da antiga sala de música no corredor. Ouviu um piano e uma música conhecida por ela. Esqueceu do cansaço e ficou ouvindo a voz maravilhosa. "Well it kind of hurts when the kind of words you write. Kind of turn themselves into knives. And don't mind my nerve you can call it fiction. ‘Cause I like being submerged in your contradictions dear. ‘Cause here we are, here we are." Paralisada ao som, não sabia se abria ou não a porta. Queria ver quem cantava a música, queria conhecer o dono dessa bela voz. Tomando coragem, abriu a porta. Vendo na sala, um jovem ao piano, cabelos loiros, pele branca. De costas, somente via parte da camiseta branca e da calça jeans preta. "Your comebacks they’re quick. And probably have to do with your insecurities. There’s no shame in being crazy, depending on how you take these. Words that paraphrasing this relationship we’re staging." Continuou cantando não percebendo a presença da jovem observando-o. Quase todos os dias antes de voltar para casa, ia aquela sala que descobrira dois anos antes e tocava. Ninguém aparecia ali depois que abrira a outra sala de música no andar de cima, então ficava tocando naquele lugar durante um tempo. Adorava isso, deixava sua voz soltar. Nunca havia sido notado, até agora. A mulher parada a porta contemplava o homem. Queria sentar ao seu lado e cantar junto, mas não permitia-se essa intromissão. Afinal, sua voz era maravilhosa demais para ser interrompida. Imaginou o que ele fazia, qual faculdade frequentava naquele Campus. Pensou que fosse música, mas poderia ser outra. Queria perguntar seu nome, se tinha namorada, onde morava, do que gostava. Sua curiosidade crescia a cada verso cantado. "And through timeless words in priceless pictures. We’ll fly like birds not of this earth. And tides they turn and hearts disfigure. But that’s no concern when we’re wounded together." Quase no fim da música, seu coração batia desesperadamente. A emoção dominava-a. Conhecia a música, somente não se apaixonara tão intensamente como agora. Ou era pela voz que estava se apaixonando? Ou era pelo homem que a cantava? Não sabia, mas não ousava mover o pé dali. "And we tore our dresses and stained our shirts. But it’s nice today, oh the wait was so worth it." Terminado de tocar, o jovem olhou para trás. Tivera uma sensação estranha durante a música, sentia que alguém o observava. Agora, olhando para trás não via ninguém. Provavelmente era algo da sua imaginação. Somente sabia que não cantava dessa maneira há muito tempo. Cantara com a alma, com a emoção, com o coração. Estava radiante. Saindo da sala, pensou que poderia voltar a tocar ali no outro dia. Talvez conseguisse cantar daquela maneira como cantara. De novo.
de ontem, seu despertador interno nunca errava. As sete e meia da manhã despertara, levantando-se preguiçosamente até o banheiro. Antes reparou no calendário em cima da escrivaninha. 28 de Fevereiro. Não reparara que já haviam passado dois meses do Natal. Lembrou-se, de repente, dos natais de sua infância. Seu pai sempre o levava para a casa de seus avós em Nova Iorque, ficava admirado com a neve e a quantidade de luzes dessa época. Nesse tempo queria ser escritor, adorava ler romances antigos como "O morro dos ventos uivantes". Passava horas com um livro nas mãos, lendo, relendo e imaginando. Se identificava com as personagens e muitas vezes se colocava na história. Era mágico! Mas com o tempo perdeu essa magia, principalmente quando os pais morreram em um acidente e deixara uma empresa para cuidar. Não podia decepcionar o pai, então não abandonara a empresa. 10 anos depois estava ele ali, trabalhando muito. Fez projetos novos, mudou muita coisa e colocara a empresa com a sua cara, mas mesmo assim, não conseguia sentir o mesmo amor que sentia pela literatura quando criança. Sentou na mesa de café da manhã, logo a empregada trazendo um copo de café quente. Reparou na aparência tristonha da mulher e perguntou-lhe gentilmente o que havia acontecido. Surpreendeu-se quando ela começou a chorar e dizer que o marido havia fugido com uma amante. Sentiu dó e a mandou para casa, tendo o dia de folga. No caminho para o trabalho pensou na pobre senhora e imaginara com quem o infeliz fugira. Era uma mulher bondosa e honesta. Como poderiam largá-la de repente? Por isso, nunca casara. Não queria viver com uma pessoa por obrigação, ser um farto para ela. Sempre estivera ocupado demais, não poderia ser um bom marido. À noite se sentiu sozinho. Sentia saudades de sua família, queria alguém para estar junto. Pedir ajuda quando precisar. De novo, sentiu pena da empregada. Agora ficaria sozinha com dois filhos adolescentes. Sentiria ele falta dela? Provavelmente não. Fechou os olhos, tentando dormir. Imagens da infância, do pai, da mãe e dos avós não paravam de passar pela sua cabeça.










































